REA|quinta-feira, junho 30, 2016

Hal Plotkin – REA é tão bom quanto livros comerciais? Não. É muito melhor! 

Hal Plotkin, consultor sênior de Recursos Educacionais Abertos (REA) do Departamento de Educação dos Estados Unidos, conta que nunca imaginou que aquela ideia inicial de possibilitar aos estudantes economizarem dinheiro com material didático aberto,
também traria resultados melhores
 
Por Priscila Gonsales
Tradução Laura Folgueira

Hal PlotkinNos últimos cinco anos, o consultor senior do Departamento de Educação Norte-Americano, Hal Plotkin, esteve à frente da ousada política de Recursos Educacionais Abertos do governo Barack Obama. Dos US$ 2 bilhões anunciados até 2015 já foram investidos US$ 1,5 bilhão na produção de materiais curriculares com licença aberta voltados a estudantes de universidades comunitárias e colégios técnicos. Nascido em Palo Alto, na Califórnia, cidade em que trabalhou como jornalista durante 25 anos, Plotkin, ao contrário de seus antecessores em um cargo de alto escalão, não estudou em Harvard, Yale ou Stanford. Ele é justamente formado por uma das 1700 universidades comunitárias – em inglês, “Community Colleges” – que existem no país e atendem cerca de 18 milhões de alunos. As universidades comunitárias ou são totalmente subsidiadas pelo estado ou são privadas com mensalidade baixa e sem qualquer exigência de admissão como as faculdades renomadas.

Segundo Plotkin, o secretário de Estado Arnie Duncan, amigo pessoal do presidente Obama (jogavam basquete juntos, em Chicago), estava decidido a trazer para sua equipe pessoas de faculdades comunitárias que estivessem fazendo um bom trabalho. Quando soube dos livros online gratuitos que o Foothill-De Anza Community College District, no Vale do Silício, Califórnia, estava produzindo, logo pensou em trazer pessoas de lá para compor sua equipe. Nessa época, Plotkin fazia parte do Conselho da instituição como ex-aluno, e liderava a iniciativa dos livros digitais, ao mesmo tempo em que mantinha uma coluna sobre tecnologias digitais na educação no São Francisco Chronicle.  Convidado a assumer o cargo no governo, uma das primeiras ações foi partir da experiência da Foothill-De Anza para desenhar um programa nacional que pudesse oferecer Recursos Educacionais Abertos em todo o país.

Plotkin mantém um blog em que registra informações sobre iniciativas REA em todo o país (Califórnia, Utah, Ohio, Washington e Florida são alguns dos estados com experiências concretas) e produziu um guia para apoiar instituições de ensino interessadas em usar, criar e compartilhar REA, publicação online em inglês, licenciada em Creative Commons, que já teve mais de 10 mil downloads em todo o mundo. Mas, segundo Plotkin, o projeto que mais trouxe repercussão para o tema dos REA foi o concurso Why Opened Matters (Por que materiais abertos), realizado com apoio da Open Society Foundation, em 2012, que premiou videos e animações que explicassem o conceito de REA. Foram 300 inscritos de vários países.

Nesta entrevista, concedida durante o OER Meeting 2014, evento organizado pela Hewlett Foundation em Sausalito na Califórnia, no final de abril, Plotkin compartilha os desafios e as convicções de uma política pública educacional focada em disponibilizar como REA todo material financiado pelo dinheiro público e também em acelerar o processo de inclusão digital em todas as escolas norte-americanas, de forma que todos os estudantes tenham acesso a livros didáticos eletrônicos até 2017.

Como surgiu seu interesse em apoiar a criação de REA?

Em minha coluna no jornal (São Francisco Chronicle), escrevia sobre o abismo entre o que as tecnologias digitais estavam tornando possível e o que estava sendo feito em educação, um dos pontos era a necessidade de disponibilizar materiais de estudo na Internet para que os alunos tivessem acesso rápido e barato. Isso porque muitos estudantes, de origem mais pobre, não tem condições de comprar um livro didático de matemática 180 dólares por exemplo, e acabam desistindo de estudar. Com internet e as licenças abertas, será que alguns professores se interessassem por colocar online e de graça um conteúdo equivalente ao que está no livro de matemática? Quando surgiu uma vaga no conselho da universidade em que estudei, os demais membros do conselho sugeriram que me candidatasse. Levantamos algum dinheiro e pagamos alguns professores para adaptar o material que tivessem, pedimos voluntários entre os docentes para colocar online. Nunca imaginei que isso me levasse a assumir um cargo no governo anos depois.

Quais são os principais desafios de hoje em relação ao incentivo à produção de REA?
Minha resposta pode te surpreender. Meu desafio principal é dar às pessoas a esperança de que as coisas possam ser diferentes e lutar contra a ideia de que tudo é ruim, nada pode melhorar e é inútil tentar, porque sempre vai dar errado. O maior problema que eu tenho é ajudar as pessoas a ter esperança de que o que existe hoje não precisa ser permanente e, se trabalharmos juntos, podemos mudar a situação de milhões de pessoas no mundo, mas a primeira coisa que temos que mudar é a nós mesmos. O grande problema não é como mudar, é acreditar que as coisas podem mudar. Uma vez que as pessoas se dão conta disso, elas conseguem juntas enxergar as soluções, e essas soluções, em alguns casos, como os REA, são muito óbvias, fáceis e baratas. E também muito engajadoras, envolvendo mais pessoas. Temos que encontrar formas de restaurar a fé das pessoas de forma que elas possam agir para criar mudança.

Poderia contar um caso marcante relacionado ao aspecto econômico do uso de REA?
Posso, um dos primeiros… foram tantos… Por exemplo, o primeiro livro didático que criamos em 2003 na faculdade comunitária do Vale do Silício, o Livro de Estatística de Educação Aberta, em uma única classe fizemos esses alunos economizar, com esse livro gratuito, até hoje, U$ 1,5 milhão no total.  E, lembre, quem vai à faculdade comunitária são principalmente alunos pobres, muitos trabalham, o “aluno-padrão” é uma mulher de 28 anos, solteira, com um filho. São pessoas que têm dificuldades e problemas. Tudo isso é dinheiro, US$ 1,5 milhão que ficou no bolso desses alunos, dessas jovens com filhos para cuidar. Elas puderam usar para comprar mais leite para o filho e para pagar aluguel, bilhetes de ônibus e outras despesas.

E os professores, o que dizem sobre a iniciativa?
Depois que começamos o programa na faculdade do Vale do Silício, tínhamos reuniões de Conselho a cada duas semanas, e a comunicação era aberta, ou seja, qualquer pessoa podia ir à reunião e dizer o que quisesse. A pessoa tinha cinco minutos para falar o que quisesse, mas tinha que esperar até o fim da reunião para fazer seus comentários. Em uma das noites, tivemos uma reunião muito longa, notei que havia um homem esperando para falar conosco. Ele esperou, esperou, já passava da meia-noite, mas ele ficou lá pacientemente. Finalmente chegou a hora de ele se levantar e falar. E ele disse: “Queria agradecê-los por aprovar a política de recursos educacionais abertos e tornar possível que eu ofereça esses livros gratuitos aos meus alunos, porque agora que estou fazendo isso e o impacto tem sido muito importante. Meus alunos confiam mais em mim, eles estão indo melhor na aula e minha aula é uma experiência melhor para os alunos e para mim, porque eles sabem que reuni os materiais da melhor qualidade com o menor custo possível para eles. Trabalhei um pouco mais, mas isso está fazendo-os economizar dinheiro, e por causa disso eles sabem que estou comprometido com o sucesso deles e estão se esforçando mais na aula, e menos alunos estão desistindo, e aqueles que ficam na aula tiram notas maiores”. E ele emendou: “Eu só vim aqui agradecer”. E foi embora. Para mim, esse foi um momento que nunca vou esquecer. Foi um encorajamento muito importante para eu continuar.

Existe algum tipo de pressão contrária a essa política de REA? Como reagem as editoras de livro didático?
Acredito que uma democracia é responsável por proteger o interesse público, não o interesse privado restrito. E digo muito às pessoas: eu trabalho para o presidente Obama e o secretário Duncan no Departamento de Educação dos EUA. Não é o “Departamento de Edição”. Se o governo quisesse ter um departamento para edições comerciais, teria. Mas não tem. Temos um Departamento de Educação e nossa missão é ajudar o maior número de pessoas a ter a melhor educação pelo menor custo possível. Esse é nosso trabalho. Os editores têm outros interesses. O trabalho deles é ganhar dinheiro. Tudo bem, somos um país livre e eles têm direito de tentar ganhar dinheiro. Mas garantir que eles ganhem dinheiro não é trabalho nosso. Modelos de negócios vêm e vão com o tempo. Houve uma época em que se andava a cavalo. Aí vieram os carros. Os carros não foram bons para quem estava no negócio de cavalos. Lamento. Deveríamos não ter automóveis porque foi ruim para o negócio de cavalos? A questão é tão boba que ela mesma se responde. Então, claro, aqui nos EUA as editoras têm influência, porque têm muito dinheiro e podem usar esse dinheiro para tentar atrapalhar o processo político. E elas tentam, e têm direito de tentar, não podemos tirar os direitos delas, e nem devemos, elas têm esse direito. Mas outras pessoas também têm direito de defender o interesse público e, numa democracia, temos regras para debater esses problemas de forma pacífica, não atiramos uns nos outros – bom, geralmente não – e, no fim, o povo decide por meio de quem elegem, em quem votam e quem apoiam. Posso dizer que sempre que fui criticado ou que interesses especiais tentaram intervir para me parar, mas o secretário sempre me apoiou totalmente. Lembro de uma reunião em que alguém perguntou ao secretário uma coisa parecida: “Deveríamos estar preocupados? Muito do que fazemos é controverso e vai deixar muitos interesses poderosos irritados conosco, e eles podem tentar agir contra nós. Deveríamos ficar preocupados em fazer esses interesses comerciais poderosos ficarem bravos com a gente?” E o secretário Duncan quase não esperou o fim da pergunta, já disse: “Vocês têm uma responsabilidade comigo, que é tomar a melhor decisão possível para os alunos americanos. E se isso criar problemas políticos, deixa que eu me preocupo com isso”. Esse tipo de apoio é que faz o progresso ser possível.


Já existem programas ou projetos para escolas de ensino fundamental ou médio?
Começamos com ensino superior porque tínhamos um fluxo de fundos para isso. Mas agora estamos incentivando esforços voluntários vindos dos estados. Temos 50 estados e cada um controla seu próprio Sistema K-12 (Ensino Básico). E recentemente os estados concordaram com um currículo comum, que chamamos de “centro comum”. Antes cada estado tinha o seu currículo, então, se você mudava de um estado para outro, seus filhos ficavam perdidos. Na terceira série estudavam coisas que no outro estado estudavam na segunda. Quase todos os estados concordaram com uma estrutura curricular comum e agora muitos estão trabalhando juntos, inclusive com Creative Commons, para criar Recursos Educacionais Abertos que atendam às necessidades. Algumas parcerias com empresas e organizações sociais nos ajudam a identificar quais Recursos Abertos já existem e servem para o currículo em vários níveis, o que ajuda os professores e os distritos escolares a encontrar materiais abertos para atender às necessidades deles.

Mas cada estado pode escolher, adaptar e imprimir o que quiser?
Sim. É um sistema descentralizado. E geralmente cada estado toma sua decisão. Em geral, cria-se uma lista de livros didáticos indicados, que inclui livros que são REA. Com isso, a escola pode escolher a partir dessa lista e decidir: “Ah, posso comprar 5 mil desses por US$ 12 cada, ou posso comprar 5 mil desses que estão abertos na internet por talvez US$ 4 cada, ou ainda, posso decidir imprimir eu mesmo por US$ 2 cada”. E essa decisão é deles. Com o dinheiro economizado, podem pagar mais aos professores, talvez dar mais benefícios, fazer classes menores….

No Brasil ainda prevalece a ideia de que é importante entregar os livros prontos para os professores, sem envolve-los no processo de produção. Como podemos mudar essa visão?
A professora de Stanford, Linda Darling-Hammond, muito famosa aqui nos Estados Unidos, uma mulher brilhante, fez uma pesquisa alguns anos atrás, olhando para os testes internacionais do Pisa em que três ou quatro sistemas educacionais ficam sempre, todo ano, no topo ou próximo do topo. Ela queria pesquisar e descobrir o que esses sistemas estão fazendo para conseguir sempre os melhores resultados. Tenho que dizer que o Brasil não está na lista, nem os Estados Unidos. Ela trouxe os líderes desses sistemas educacionais para Washington para um seminário, ao qual eu fui. Cada um deles falaria sobre o que estava fazendo para sempre conseguir os melhores resultados. Foi muito interessante assistir ao seminário, cada um subiu para falar sobre o que estava fazendo e, quando chegou a vez de a quarta pessoa falar sobre o que estava fazendo, eu sabia, todo mundo sabia, o que ela ia dizer, porque os três palestrantes anteriores, apesar de não terem combinado nada um com o outro, tinham basicamente dito a mesma coisa. Os países tinham chegado aos mesmos métodos e estavam tendo bons resultados de forma independente, tinham algo em comum, e era que em todos esses sistemas de alta performance os professores estavam muito envolvidos na criação e na melhoria do currículo e dos testes. E em nenhum desses sistemas de alta performance os professores usavam um livro didático que alguém tinha jogado na cabeça deles como helicóptero.

E por que isso é ainda tão difícil de explicar à maioria das pessoas?
Um dia, no banho, encontrei a melhor maneira de explicar, e essa explicação funciona muito bem com pessoas que não acompanham os resultados de testes acadêmicos. Tem a ver com comida. Eu já te disse isso antes? (risos). Eu gosto de comer, de cozinhar, gosto de comida, e sei que os brasileiros gostam de comida, adorei a comida quando visitei o Brasil. Então essa é a analogia, a comparação: você ia querer ir a um restaurante, no Brasil ou onde fosse, em que a comida fosse feita em outro lugar e requentada para você logo antes de ser servida? Ou: você ia querer mandar seu filho para uma faculdade de gastronomia ou uma escola de culinária, onde ele fosse ensinado a esquentar a comida que outra pessoa preparou? É claro que a resposta é não. Você quer comida fresca. Você quer que o chef esteja na cozinha fazendo os ingredientes frescos, pois assim o gosto vai ser melhor. Bom, acontece que agora temos pesquisas que mostram que é o mesmo para a sala de aula, que quando um professor se envolve como um cozinheiro, criando o material, melhorando o material, selecionando o material, trabalhando com o material, em todas as fronteiras, culturas, disciplinas e idades, o desempenho dos alunos melhora. De alguma forma, os alunos sabem que aquele professor é mais especialista no assunto, está mais envolvido e tomou as decisões, escolheu aqueles materiais especialmente para eles. E os alunos respondem, eles vão melhor. Então o que aprendi é que a comida requentada é igual ao material de aprendizagem requentado. Você sempre tem resultados melhores quando é preparado fresco e melhorado de forma contínua.

Qual foi seu principal aprendizado depois de 5 anos trabalhando com REA no governo?
Quando comecei a divulgar a ideia de REA, há quinze anos, fiz com a noção de querer economizar dinheiro dos estudantes. Eu estava focado só no custo, em tentar economizar dinheiro para os alunos. Nunca imaginei que, enquanto fazíamos com que eles economizassem dinheiro, também teríamos resultados melhores. Que não apenas o material gratuito era mais barato, de graça, mas que o benefício real é que era melhor. Os alunos estão aprendendo melhor, estudando mais, estão ficando mais tempo nos estudos, os professores que usam estão mais felizes, relatam mais satisfação no emprego, estão se tornando acadêmicos… Isso é algo que eu não previ, eu estava só tentando economizar o dinheiro dos alunos pobres. Não imaginei que o que estávamos fazendo também ia melhorar dramaticamente a qualidade da educação que eles recebiam. Por isso que quando alguém me pergunta: “REA é tão bom quanto livros comerciais?” Eu respondo: “Não. É muito melhor”.

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Panorama atual de REA nos Estados Unidos(*)

No estado da Califórnia, as compras públicas de livros já dão prioridade a recursos abertos, sendo que o governo estimou que a adoção de materiais abertos no modelo REA, das áreas de ciência e matemática para os quase 2 milhões de estudantes do ensino médio (high school), já significarão uma economia de U$ 400 milhões. Movimentos semelhantes estão acontecendo em estados como Utah, Ohio e Flórida. Neste último, o poder legislativo estadual encomendou uma série de estudos sobre o preço de acesso a livros didáticos e qual o impacto na diminuição de barreiras econômicas à educação com a adoção de livros didáticos abertos, os chamados open source texbooks. Pode-se dizer também que o estado de Washington, no noroeste dos EUA, avançou de forma consistente ao decidir desenvolver e publicar na internet gratuitamente e no formato de REA todo o seu material curricular, por meio do projeto Biblioteca de Cursos Aberta (Open Course Library). Até o momento, 42 cursos foram desenvolvidos e disponibilizados, já sendo adotados como referência em outros lugares dos EUA e do mundo. O projeto também disponibilizará livros didáticos abertos e impressos aos estudantes por não mais que US$ 30, o que significara uma economia de mais de US$ 1.000 por estudante por ano naquele estado. Todos os cursos e livros da Open Course Library estão disponibilizados sob uma licença CC-BY – a mais flexível das licenças disponibilizadas pelo Creative Commons. Além dessa iniciativa, o poder legislativo do estado de Washington aprovou projeto de lei OER K-12 Bill, oficialmente chamado de HB2.327, na Câmara Legislativa Estadual, que determina que as escolas públicas adotem recursos educacionais abertos, além de apoiá-las na criação, uso, e aperfeiçoamento de cursos abertos. Este projeto de lei já encontra-se no Senado estadual, tendo sido aprovado pela sua comissão fiscal em fevereiro de 2012.
Por fim, em Utah, o Estado decidiu incentivar a produção e adoção de livros didáticos com licenças livres, reduzindo o custo da unidade de U$ 80 para U$ 5 por livro por aluno para as áreas de matemática, ciência, línguas e artes. Em outros países, como a África do Sul, o governo adotou oficialmente os livros didáticos abertos produzidos pelo projeto Siyavula, que possibilitou que o governo distribuísse mais de 2,4 milhões de livros abertos a um preço nominal relativo ao custo de impressão.
(*) Extraído do artigo: http://www.artigos.livrorea.net.br/2012/05/rea-o-debate-em-politica-publica-e-as-oportunidades-para-o-mercado/